JADE KANG
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deets about jade
jade kang moon, 1999.
capricorn, guitar&exhale.
life, on the other hand won't make us understand we're all part of themasterplan
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WANNA LIVE, I DON'T WANNA DIE. MAYBE I JUST WANNA BREATHE. MAYBE I JUST DON'T BELIEVE. MAYBE YOU'RE THE SAME AS ME, WE SEE THINGS THEY'LL NEVER SEE.
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likes sikhye summer jack white heitor villa-lobos tom morello daron malakian jacqueline du pré & martini. |
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dislikes winter rainy days pork meat cold cooking waking up early matcha imagine dragons |
THE MASTERPLAN
Nascer com uma colher de prata na boca foi quase algo literal para Jade, que nunca sentiu falta de nada material e sempre teve acesso a todas as oportunidades possíveis em sua vida, para que fizesse o que quisesse com ela. O que em teoria seria o paraíso — se ela não tivesse uma necessidade extrema da aprovação do pai, e fizesse de tudo por isso, incluindo estudar tudo que fosse do agrado dele.Ainda que tenha nascido e sido criada em Londres, Jade se esforçava para criar uma ligação com o país de origem do pai; aprendeu coreano com um incentivo pouco ortodoxo, visto que a regra em casa era que ela só poderia falar com o pai se fosse na língua materna dele. O mesmo se aplicava aos instrumentos tradicionais que ela aprendeu a tocar, às receitas típicas que se esforçou para dominar, e à sua participação ativa em associações culturais coreanas em Londres. Parte de Jade se orgulhava dessa conexão com suas raízes, mas outra parte reconhecia que cada nova habilidade dominada era apenas mais uma forma de manter o favor de Hyunsik. Sua própria cultura tornou-se uma moeda de troca emocional.Com o violoncelo, no entanto, Jade encontrou uma válvula de escape que inicialmente parecia ser sua. O instrumento tornou-se sua paixão genuína, e, por algum tempo, ela acreditou que esse poderia ser o caminho para agradar o pai e, ao mesmo tempo, cultivar algo que era verdadeiramente seu. Mas como tudo em sua vida, até o violoncelo foi transformado em uma ferramenta de controle. Cada conquista artística, cada prêmio ou reconhecimento, não era apenas dela — era mais um troféu para seu pai exibir. Ainda que sempre ocupado com sua vida empresarial, fazia questão de estar presente em suas apresentações, e cada vez que dava um grande passo em sua carreira, era cobrada equivalente ao tamanho de sua conquista. O porta-retrato em que ela segurava um de seus prêmios, que ele mantinha com orgulho em seu escritório, era uma lembrança constante de que seu valor estava vinculado às suas performances. A pressão para ser perfeita a corroía; não havia espaço para erros, distrações ou interesses que não se alinhassem à visão de sucesso imposta por ele. O que começou como amor à música rapidamente se transformou em uma prisão.Quando a oportunidade de estudar com Wang Jian em Xangai finalmente foi conquistada, o que deveria ter sido um momento de pura euforia veio carregado de emoções conflitantes. O sonho de aprimorar sua técnica com um dos maiores mestres do violoncelo parecia um prêmio merecido após anos de dedicação. Contudo, o alívio que sentiu ao saber que partiria para longe de seu pai, que por mais que fizesse algumas viagens para Seoul, sabia que poucas seriam as vezes que seria para vê-la, foi um eco da opressão silenciosa que suportara durante anos.Em Seoul, Jade começou a encontrar algo que nunca tivera: amigos. Pessoas que não a viam como a “filha de Hyunsik” ou como uma prodígio do violoncelo, mas como alguém com quem podiam rir, conversar e dividir silêncios. Foi nesse novo ambiente que ela, aos poucos, reencontrou uma parte esquecida de si mesma.Desde pequena, Jade sabia tocar guitarra — um talento herdado por sangue. Não era uma história bonita, mas resumindo: sua tia fez parte de uma banda de fama internacional, Supercut, e sua mãe cresceu na sombra dela, ao ponto de que quando a mulher veio a falecer em um acidente de carro, seu avô, que gerenciava a banda, decidiu que sua mãe deveria assumir o posto deixado pela primogênita. Embora sua mãe tenha abandonado a carreira musical para perseguir o que realmente queria e não o que esperavam que ela quisesse, a guitarra sempre esteve presente na casa onde Jade cresceu. Não de forma escancarada porque Kang Hyunsik achava um instrumento escandaloso demais, rebelde demais, vulgar demais, tudo demais – mas Raven Moon estava pouco se fodendo para que o marido achava então com 12 anos Jade ganhou sua primeira guitarra e o privilégio de aprender a tocar com sua mãe. Foi um ato quase clandestino, íntimo, porque por mais que sua mãe não tivesse medo de seu pai, ela tinha.Com os novos amigos e o ambiente mais livre, Jade começou a tocar mais frequentemente, a deixar que a música fluísse de um jeito que não era pautado por rigor técnico, mas por sentimento. Foi assim que, quase sem perceber, deixou o violoncelo de lado e passou a se dedicar à guitarra. Sua paixão mudou de forma e foi só questão de tempo para ela encontrar onde depositar esse sentimento.
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Quem a conhece superficialmente costuma dizer que ela é tranquila, educada, até doce. De fala baixa e olhar atento, Jade é uma ótima ouvinte e responde com o cuidado de quem mede cada palavra, não por frieza, mas por saber desde pequena que uma única palavra errada pode colocar tudo a perder.Mas Jade não é naturalmente calma, ela se esforça muito para ser calma. Ela segura o que sente porque foi ensinada a não atrapalhar, a não errar, a não expor fraquezas. Seu temperamento vive à flor da pele, e às vezes basta pouco para que a superfície se rompa: uma crítica mal colocada, um tom de voz condescendente. Então está em constante vigilância de si mesma porque sabe que, se deixar transbordar, se abrir espaço demais para o que sente, corre o risco de explodir. Não perde o controle com frequência, mas quando perde, parece outra pessoa, e é por isso que se esforça tanto para não chegar lá.Ela não é manipuladora, mas conhece o jogo. Observou isso a vida inteira no pai — o jeito de virar o mundo a favor dele com uma frase, um gesto, um silêncio bem usado. E mesmo sem querer, absorveu parte disso. Sabe usar o que aprendeu, mas só o faz quando se sente ameaçada ou ferida. Porque, acima de tudo, Jade quer ser diferente. Quer viver com leveza, se cercar de pessoas que não a forcem a usar as armas que conhece tão bem.Jade é tudo isso, intensa demais, mas também é uma pessoa muito divertida, amável e do tipo que é capaz de começar uma guerra por quem ela ama.
+ Tem um irmão 6 anos mais velho e ambos são muito ligados, mas agora raramente se veem pessoalmente.+ Jade tem dermografismo.+ Tem uma coleção de relicários que garimpa em antiquários.+ Estudou na Royal Academy of Music de Londres.+ Além do inglês, é fluente em coreano e francês.+ O ex namorado faleceu há 1 atrás e ainda enfrenta partes do luto.+ Seu pai encarou extremamente mal o fato dela ter largado os estudos para seguir com a banda, mas sua mãe ainda consegue fazer o "meio de campo".
OOC / GUIDELINES Oie! Meus pronomes são ela/dela, sou +21 e estou aberta para todo tipo de plot menos romance porque ela já tem endgame.
+ Sempre vou preferir jogar ao invés de hc, mas entendo a demora em respostas afinal todos temos vida fora daqui.
+ Não jogo e nem trato sobre tópicos +18 com players menores de idade.
+ A Jade é uma personagem de personalidade instável, peço que levem isso em consideração quando interagirem com ela.
+Se por ventura minha char lhe ofender de alguma forma, por favor me chame na dm para que possamos resolver de forma clara.
CAN’T WAKE UP IN SWEAT.
09 DE AGOSTO DE 2025Quando Jaehyun mandou mensagem avisando que estava no festival, Jade achou que seu sorriso iria rasgar o rosto de tão grande. Sentia tanta falta do irmão que não conseguia nem explicar, eram tão ligados que a mãe costumava dizer que eles eram gêmeos de mães diferentes. Sempre teve dificuldade em fazer amizades, receio do tipo de pessoa que os rodeava e amizades de plástico, então Jaehyun além de irmão se tornou um melhor amigo. Claro que brigavam, implicavam, principalmente porque o irmão era calmo como um lago, e Jade sempre foi um furacão, desde pequena, então algumas vezes tinham dificuldade em se comunicar. Mas nada aquilo importava, o que importava era que em poucos minutos iria ver sua pessoa favorita e consequentemente receber uma dose de calmaria antes do show iniciar.Tinha corrido tudo bem na passagem de som, e agora ela estava sentada nas escadas do trailer falando com um técnico da equipe enquanto esperava o irmão. O apelido que mais amava, “our kid!”, se espalhou pelo espaço aberto e ela levantou no mesmo segundo, correndo para os braços do irmão, que a apertou com força, demorando alguns segundos a mais para compensar aquele quase 1 ano sem se verem. Jaehyun trabalhava com o pai, viajava muito e era difícil conseguir um espaço na agenda dele, sem contar que aquele definitivamente não era o tipo de espaço que combinava com o rapaz, então sabia que tinham diversos esforços para que ele estivesse ali.O abraço se desfez, com ele a segurando pelo rosto e dando um beijo na bochecha cheia por conta do sorriso que não saia. Só então, depois que ele deu um passo para o lado, que ela reparou nas duas pessoas atrás dele.Ela piscou rápido, sem entender de imediato. O cérebro demorou um segundo a processar, como se estivesse vendo uma miragem.A mãe estava ali. Linda como sempre, o cabelo longo e preto como o seu próprio dando toda a elegância que a mulher não fazia questão alguma de expressar de outra maneira, rebelde como a caçula. Jade sentiu algo quente subir ao peito, uma lembrança quase física de como era se sentir segura. Foi automática a forma como ela se aproximou e abraçou a mãe, apertando forte, com vontade de não soltar. O cheiro familiar, a textura do tecido da blusa que ela usava, tudo nela gritava “casa” e tudo em Jade sentia vontade de chorar, tendo o rosto segurado pela segunda vez e os olhos escuros de Raven correndo por toda sua face, dando beijos vez ou outra na pele macia, semelhante ao o que uma felina faria com seus filhotes.Os braços da mãe ainda a envolviam quando a visão por cima do ombro dela trouxe a presença que fez seu estômago dar um nó e drenar quase que de uma vez todos os sentimentos bons que estavam florescendo; Kang Haeim. Com toda a sua postura reta, expressão contida, olhar que não parecia pesar menos com a distância dos anos. Jade respirou fundo antes de se afastar de Raven, moldando um sorriso absurdamente menor do que os outros que havia dado até então, e assim deu dois passos até ele.“Surpresa!” ouviu o irmão falar, imaginando que ele estaria com um sorriso amarelo, porque sabia muito bem que tudo que Jade não iria querer, era o pai ali. O homem não disse nada — apenas a puxou levemente para perto e encostou os lábios na testa dela num selar demorado, e o ato a fez se sentir com 10 anos de novo. Se não via a mãe e o irmão a quase 1 ano, estava sem ver o pai praticamente desde que se mudou para Xangai, porque entrar na EXHALE foi como dar uma facada nas costas do Kang que muito provavelmente só não a levou de volta para a Inglaterra pelos cabelos por muitas mediações da matriarca.— Não acredito que vocês vieram! – O sorriso voltou para o rosto quando se virou para a mãe, se aproximando novamente dela e de seu abraço. — O Jaehyun disse que ia vir com a namorada e um amigo, mentiroso… – O tom acusatório era meio brincando, meio falando sério, levemente chateada por não ter sido previamente avisada da presença do pai. Tudo voltava quando via Haeim, todo o peso de precisar agradar, impressionar, precisar ser a melhor, voltava como um trem descarrilhado.“Eu comentei com a mamãe, e ela com o papai, foi ideia deles fazer surpresa. Você sabe que eu não gosto dessas coisas…” Ele se explicou com o tom claramente culpado, mas também defensivo. — Pois é… Uma ótima surpresa – respondeu, seca o suficiente para Jaehyun perceber, mas suave o bastante para que os outros não captassem. Voltou a sorrir para a mãe, como se aquela fosse a única presença que realmente importava, mas já sentia o corpo começar a ficar em alerta.Trocaram mais algumas palavras — sobre a viagem, em qual hotel estavam hospedados ali em Berlim, do festival, e que poderiam ir comer juntos depois do show — enquanto o som ao redor parecia abafado, o ar mais quente, como se não fosse o mesmo lugar em que estava minutos antes. Manteve os ombros relaxados de propósito, mas os dedos se moviam inquietos, arranhando a costura da calça sem perceber. O coração estava rápido demais para quem só estava conversando.— Eu preciso entrar pra me arrumar, mas nos vemos mais tarde? — era uma pergunta retórica, mas fez mesmo assim, aproveitando uma brecha na conversa. Deu um beijo rápido no rosto da mãe, tocou o braço do irmão com a ponta dos dedos e se afastou.O sorriso sumiu antes mesmo de ela entrar no trailer, e quando entrou foi quase tropeçando na porta, e correu pelo espaço estreito para chegar no pequeno banheiro, mal tendo tempo de abaixar antes de o corpo reagir. As mãos se apoiaram com força na borda fria da pia enquanto o som e o gosto amargo do vômito queimavam a garganta.Desde que Jade era criança, a presença do pai sempre foi um campo minado: era a voz firme, os olhos que pareciam medir cada movimento seu, o medo constante de desapontá-lo, de não ser suficiente. Era o fato de que eles foram melhores amigos até os 9 anos dela, e depois disso ele mudou completamente. Complexo demais para ela entender quando criança, e complexo demais para ela entender agora adulta.A batida que ouviu na porta foi suave e cautelosa. “Jade?” O sotaque americano, polar ao seu próprio, era impossível de confundir. Jonathan.— Merda… – murmurou, e até tentou dizer que estava bem, mas a frase se perdeu em outro espasmo seco que a fez se curvar novamente sobre a pia.A porta se abriu devagar, e Jonathan entrou com cuidado, como quem já sabia exatamente o que iria encontrar. Não fez nenhuma pergunta inútil, não pediu explicações. Apenas se aproximou, parou atrás dela e tocou levemente o ombro de Jade em um gesto firme o bastante para que ela soubesse que ele estava ali. ”Que tal se a gente abrir a torneira?” Pelo reflexo do espelho o viu virar o rosto na direção contrária, a expressão de nojo chegando a ser engraçada, o que no meio daquilo tudo tirou uma risada curta dela, mesmo que as mãos ainda estivessem tremendo quando ela as colocou debaixo d’água para lavar a boca e o rosto por completo.— Eu odeio isso… — soltou depois de um longo suspiro, sem especificar se “isso” era a presença do pai, o efeito que ele tinha nela ou a sensação de estar prestes a subir no palco com o estômago virado.“Eu sei” foi tudo que ele respondeu, simples, e em seguida pegou uma toalha pendurada ao lado, estendeu para ela antes de se encostar na parede estreita, deixando espaço para que ela respirasse. Jade secou o rosto devagar, o pano absorvendo não só a água, mas o esforço que ela fazia para não deixar a ansiedade transbordar ainda mais. Precisava se acalmar, tinha coisas mais importantes pra fazer, muitas outras pessoas para impressionar além do próprio pai, por mais que quisesse se esconder e chorar até aquele sentimento passar, não tinha tempo e para além disso, não podia se torturar assim.“Eu vou acender um pra gente, você vai escovar os dentes, e vai ficar tudo bem, Gallagher. Te espero lá fora, ok?” Jonathan bagunçou os fios do topo da cabeça dela e saiu do espaço apertado, sem saber que todo o ato de carinho e cuidado, incluindo o apelido que ele adorava usar para provocá-la, serviu de lembrete do motivo de estar ali: pela banda, pelos seus amigos e por si mesma.Se preocuparia com todos os outros sentimentos depois.
'CAUSE IT AIN'T OVER YET, STILL DANCIN' WITH YOUR DEMONS.
09 DE AGOSTO DE 2025 / 08:30PM.O calor das luzes de palco batia em seu rosto, misturando-se ao calor interno que subia pelo corpo. Jade segurava a guitarra com força, os dedos posicionados com a precisão de quem treinou até a exaustão, ficando até brancos tamanha a tensão com que segurava. Sabia que, em algum ponto da plateia, entre centenas de rostos indistintos, estava o olhar mais difícil de enfrentar.Haeim.Ela não precisava vê-lo para saber que estava ali, impecável, observando cada movimento. Não como os fãs ou o público geral, que vibravam com cada música, mas avaliando apenas pelo prazer de procurar e encontrar um erro. E era exatamente o medo de errar que latejava nas pontas dos dedos, e por um momento pensou em como seria um deslize ecoando pelo festival inteiro, atingindo-o como prova de que ele tinha razão em duvidar, de que ela realmente não era boa no que estava fazendo. A garganta secou, o ar começou a querer faltar e o coração disparar, mas ela respirou fundo. Não precisava ter uma crise de ansiedade em cima do palco, no meio de uma música. Precisava canalizar aquele desconforto para algo quase agressivo: tocar com mais força, mais raiva, mais vontade.Cada reação do público ajudava, cada interação com os membros da banda ali no palco ajudava a não se perder em uma única pessoa, em um único problema. E a cada nota, a cada transição perfeita, ela repetia para si mesma que se ele não fosse capaz de ver o valor ali, o problema não era dela.Quando a última nota ecoou e ela ergueu o rosto para a plateia, ofegante, a visão das luzes e braços erguidos trouxe um alívio imediato: não tinha errado. Não naquela noite. Não para o prazer dele.A banda se reuniu no centro do palco para agradecer, e Jade sorriu, mas com o coração ainda acelerado por motivos que não tinham nada a ver com a música.09 DE AGOSTO DE 2025 / 10:30PM.O restaurante era daqueles em que o som dos talheres parecia mais alto do que qualquer conversa, a luz baixa refletindo no vidro das taças, o cheiro discreto de ingredientes caros e vinho fino no ar. Jade ainda tinha o corpo vibrando com a mistura de suor, luzes e gritos da plateia, mas, sentada ali, entre toalhas de linho e guardanapos dobrados com perfeição, sentia a adrenalina aos poucos se transformar em uma tensão diferente. Fazia tempo que não se encontrava naquele tipo de ambiente, foi criada dentro de diversas convenções sociais, jantares em restaurantes caros, mas aquilo quase não fazia mais parte de sua realidade, não frequentava mais ambientes caros como aqueles, onde o nome valia muito mais do que o que era servido.O irmão, sentado à sua esquerda, parecia relaxado demais, como se o jantar fosse apenas mais uma refeição qualquer. Sua mãe, por outro lado, estava com aquele brilho no olhar que Jade conhecia bem: o brilho de quando uma mãe se orgulhava, que precisava se conter para não paparicar a filha e sair contando para o mundo como ela era a melhor do mundo, mesmo que não fosse. “Foi incrível!” – Raven disse, inclinando-se para a frente. O sorriso era genuíno, os olhos brilhando juntos dos de Jade, que por mais que estivesse um pouco desconfortável não tinha como deixar de se sentir feliz com a aprovação da mãe “Eu até diria que o mérito é todo seu mas, como toda boa mãe, preciso mencionar que se não fosse pelo meu dedo…” – A mulher empinou o nariz de brincadeira, sem se importar em deixar claro que ela tinha e muita influência sobre Jade ter largado o violoncelo, claramente não se importando com a insatisfação do marido com relação ao destino que a filha escolheu seguir.“O pessoal da banda parece ser muito legal, quem sabe se vocês passarem na Inglaterra, nós não organizamos um jantar ou algo do tipo?” – A ideia de ter todos os membros da EXHALE em sua casa aqueceu o peito da guitarrista de imediato, porque tinha algo especialmente bonito em levar as pessoas que amava para conhecer um lugar tão íntimo para si. A mãe parecia igualmente animada, adorava organizar aquele tipo de coisa – não para os sócios do marido ou as pessoas da alta sociedade que de vez em quando era obrigada a receber, mas para sua família, para os próprios amigos e os amigos de seus filhos. Jade concordou com a cabeça igualmente animada, estendendo a mão na mesa para tocar a de Jaehyun. — Eu fico muito feliz de vocês terem conseguido vir hoje, mesmo… Sei que a agenda dos três é complicada, principalmente a do papai, então eu aprecio muito vocês estarem aqui. Queria que conseguissem ficar mais tempo.Do outro lado da mesa, Haeim permanecia calado, o rosto impassível, cortando um pedaço minúsculo do prato como se aquilo exigisse mais concentração do que qualquer conversa. Jade não conseguia evitar: cada vez que a mãe ou o irmão falavam, ela esperava que ele se manifestasse, que soltasse ao menos um “foi bom”. Mas nada. Claro, ele sabia que doeria muito mais não falar nada, não reconhecê-la, do que fazer uma crítica. Porque fazer uma crítica significaria que ele prestou atenção. E mesmo que ela conhecesse aquele jogo mental, porque cresceu sendo manipulada por ele, não conseguia evitar em se sentir um pouco frustrada.O jantar seguiu com comentários amenos, com o pai falando pouco e a mãe e o irmão falando pelos cotovelos, informando Jade sobre todas as novidades sobre suas vidas. Quando o prato principal de todos chegou ao final, Haeim limpou a boca com o guardanapo, colocou-o cuidadosamente ao lado do prato e se levantou. “Com licença” – disse, antes de caminhar para o banheiro.Assim que ele se afastou, Jade se inclinou para frente, os cotovelos quase tocando a toalha, sem medo de parecer desesperada. — Ele… Falou alguma coisa? – A pergunta saiu baixa, com um pouco de timidez e Jaehyun desviou o olhar para a taça e ficou em silêncio, o que foi resposta suficiente para que Raven soltasse um suspiro e relaxasse na cadeira, sem intenção de esconder algo da filha mais nova “Falou sim, filha… Achou muito barulhento, muito vulgar.” – Não sabia porque esperava algo diferente, era óbvio que ele não iria gostar, óbvio que não falaria algo de bom sobre alguma coisa que não aconteceu do jeito que ele queria. As sobrancelhas se juntaram em uma expressão de confusão e raiva, enquanto cruzava os braços, mas logo suavizaram, porque acima de tudo estava chateada. Acreditava que se pelo menos conseguisse o impressionar, se ele enxergasse que ela era tão boa na guitarra quanto com o violoncelo, se visse onde ela estava, talvez a opinião dele fosse diferente.Claro que Raven percebeu a maneira como a filha se magoou, e por isso se inclinou do outro lado da mesa, como se pudesse ficar mais próxima “Mas, Jade, eu também tocava em uma banda igualmente vulgar, igualmente barulhenta e igualmente maravilhosa… E veja só, ele acabou me pedindo em casamento.” – Jade mordeu o canto da boca, o riso saindo pela metade. “— Não sei se isso é pra me consolar ou me preocupar, mãe…”“Isso é pra te lembrar, – Raven respondeu, com um leve sorriso, “que nem sempre o que ele acha é o que realmente importa. Que nem sempre o que ele diz achar, é o que ele sente. Ele está contrariado, mas dê mais tempo. Você provou seu ponto, mostrou que não está de brincadeira, mais cedo ou mais tarde ele vai ter que reconhecer.” – Queria dizer para a mãe que era sempre ela quem deveria dar tempo a ele, que aquilo não era justo, mas não iria estragar a única noite que tinha com eles, então optou apenas por morder a língua e abrir um sorriso pequeno. Ao menos o aperto no peito tinha afrouxado um pouco, ainda que não tivesse a aprovação dele, mas ao menos tinha a mãe e o irmão do seu lado, e por hora era mais do que ela poderia pedir.
100 MILES AN HOUR (THINKIN' OF YOU).
16 DE AGOSTO DE 2025 / ?Era seu terceiro copo de bebida naquela noite, o que normalmente não a deixaria bêbada mas estava de estômago praticamente vazio então o processo de embriaguez foi bem mais rápido que o normal. Tinha se afastado da maior parte das pessoas, encontrando uma parte mais deserta da praia por onde caminhava com os sapatos em uma mão junto do celular e o copo na outra. Tentava seguir um caminho reto, focando a atenção na trilha de conchinhas que brilhavam na areia, refletindo as luzes do paraíso que estavam.Pela primeira vez desde que aquilo começou a acontecer, aquela era a primeira que se sentia verdadeiramente culpada, com vontade de chorar, com uma tristeza muito semelhante a de quando estava de luto – no passado, porque não podia mais dizer que estava enlutada com a morte do namorado, poderia? Com tudo que fez? Como vinha agindo? Poucas vezes nas últimas semanas tinha parado para pensar em Noah, para lembrar dele. Toda vez que a sombra do rosto do rapaz ficava muito perto de sua mente ela se distraía com outra coisa, com outra pessoa. Claro, porque o inconsciente sabia que no minuto que ela parasse pra pensar, iria desandar e se ela assumisse consciência do que estava fazendo, teria de parar.Uma parte dela queria correr de volta para a festa, rir alto e fingir que nada tinha acontecido. Outra, mais honesta, implorava para ficar ali até o sol nascer, sozinha, castigando-se com lembranças que vinha evitando a todo custo, e em seguida o cérebro começou a comparar os dois, as pequenas semelhanças e diferenças lhe embrulhando o estômago; Noah não era feito de gestos grandiosos, mas de silêncios confortáveis e de uma presença leve mas que bastava. Enquanto ele tinha uma intensidade que mexia em camadas de si que ela nunca tinha ousado encostar. Cada gesto dele parecia reclamar atenção, cada olhar carregava algo que ela não sabia nomear e que, no fundo, a aterrorizava. Era errado? Claro que era, tinha que ser, nenhuma pessoa normal ficaria em paz em se apaixonar pelo melhor amigo do falecido namorado. E ainda assim, sentiu um arrepio percorrer a espinha só de imaginar a proximidade dele, de ouvir a voz dele ecoando na memória, mesmo sem ele estar ali.Jade se deixou sentar na areia, sentindo o frio úmido invadir a pele, misturando-se ao calor que queimava em suas bochechas. O copo balançou um pouco, derramando parte da bebida na mão, mas ela nem se importou. A culpa e o desejo formavam uma corrente tão pesada que ela mal conseguia respirar direito, cada lembrança de Noah a apertava, e para adicionar na lista de coisas horríveis que fez ou pensou, pensou que estava muito melhor sem lembrar dele, mas tentar se convencer de que se pudesse voltar algumas semanas atrás teria feito diferente, repulsivamente, a fez se sentir muito pior.“Noona?” Claro que naquele estado não reconheceu a voz que veio de trás de si, virando tão rápido que provavelmente acordaria com o pescoço doendo. O suspiro de alívio que soltou quando reconheceu Jaehyun veio junto de um choramingar, e em seguida o mais novo estava sentado do lado dela, sem falar nada, só segurou em sua mão e encarou a água na frente deles. Ela fechou os olhos, deixando que o vento quente acalmasse os pensamentos mais pesados, como se o silêncio compartilhasse parte do fardo que carregava.
COLUMBIA
22 DE AGOSTO DE 2025 / ?Tinha sido difícil ensaiar com as gravações com os artistas convidados acontecendo em paralelo, e mesmo que tendo sido uma experiência divertida e enriquecedora, Jade não poderia estar mais confortável em voltar para os braços da EXHALE. Talvez o problema todo fosse esse, na verdade. Ficou confortável demais, o suficiente para que seu humor e falta de atenção começassem a se destacar.Estava mais acostumada com as outras músicas que já haviam tocado algumas boas vezes, então os dedos corriam pelas cordas da guitarra de forma automática, usando de memória muscular. Só que memória muscular não tinha emoção, era o corpo agindo por um simples impulso, por saber o que deveria fazer na situação e emoção era um dos fatores mais importantes na performance da EXHALE. E como dito, as músicas autorais eram fáceis, mas o cover um pouco mais difícil — não que a melodia fosse difícil, ou os acordes complicados, na verdade era um looping dos mesmos acordes que em outra situação seria muito confortável e que Jade tiraria de letra, mas estava enfrentando dificuldades, principalmente na transição de seu solo para o início da música.Fazia alguns dias que não conseguia dormir direito, nem depois de fumar uma baseado com Jaehyun e ser ninada pelo amigo, o cérebro fez questão de a acordar poucas horas após ter fechado os olhos. Toda a concentração que conseguia reunir era depositada no estúdio com a Kali Uchis, o que era extremamente injusto com a banda e ela sabia, mas não facilitava em nada. Era profissional, cresceu sabendo ser extremamente rígida, seguir regras e empurrar todo o resto de lado, mas uma vez que você se permite sentir as coisas por completo — e Jade sentia tanto que quando morava com os pais doía quase que fisicamente ter de se conter o tempo todo — fica difícil voltar a ser alguém distante e contida.Quando ela errou novamente a sequência de acordes segundos antes de Yeonjun abrir a boca para cantar o primeiro verso, foi a risada ácida e a forma como ele fechou os olhos para passar os dedos na testa que a avisaram primeiro de que ele tinha perdido a paciência. O microfone voltou pro pedestal ao mesmo tempo que ela colocou a guitarra ao lado do corpo, com um pouco de raiva de si mesma, pronta para se desculpar mas o vocalista foi mais rápido, erguendo o dedo indicador contra os lábios, para ela não falar. — Eu não sei qual é a porra do seu problema, Jade, mas você tem até amanhã pra resolver, porque ninguém aqui está em condição de entregar uma merda de show por sua culpa. – Claro que ela queria rebater, como quase sempre fazia quando se tratava de Yeonjun. Eles tinham uma relação que quando vista de forma superficial poderia parecer que se odiavam, mas era completamente o contrário.De canto de olho viu Jaehyun sair da bateria e correr pro seu lado, quase como se estivesse pronto para apartar alguma coisa, — Talvez seja melhor mesmo, noona… – A voz dele saiu em um tom cuidadoso, enquanto na metade da frase Yeonjun falava novamente por cima dele, as mãos apoiadas no microfone “É, sai, vai tomar um ar, depois você volta se ainda estivermos aqui.” enquanto Jonathan parecia meio incerto de como agir e Nali visivelmente inclinada a concordar com Yeonjun. Não que estivessem errado, de novo, se fosse o caso naquela altura Jade já estaria arrancando cada fio da cabeça do amigo.Ela retirou a guitarra do corpo, afim de guardar na case mas apenas a encaixou no suporte sabendo que se ela não voltasse para buscar o próprio vocalista guardaria, ou qualquer um dos amigos. Não disse nada, porque não tinha o que dizer, apenas abriu a porta e saiu. Poderia ir pra rua, tomar um ar como lhe foi sugerido, mas em vez disso foi para o quarto com o celular na mão, encarando a conversa não movimentada por quase 1 semana.A unha bem pintada foi até os lábios, e ela mordeu mesmo sabendo que não seria capaz de quebrar, encarando o celular.Iria resolver a porra do problema.